2004
Seis e quinze da manhã. O barulho insistente do despertador finalmente o convenceu a levantar. Pelo vão da persiana, os primeiros raios de sol começavam a se projetar sobre a cama,
como tentando insinuar que, querendo ele ou não, o dia ia entrar em cartaz mais uma vez, sendo a tela aquele imenso lençol branco e ele, o ator principal. Ao tentar desligar o despertador, derruba
uma caneta e algumas folhas que estavam sobre o criado-mudo.
Como fazia habitualmente, nos dias de sol gostava, antes de tudo, de abrir a porta da sacada, no 10º andar, e observar por alguns minutos a cidade que também lentamente começava a acordar.
Os mesmos rostos no ponto de ônibus. O homem da banca de jornais. Um e outro boêmio voltando para casa. E o trânsito ainda tranqüilo e displicentemente espalhado nas largas e espaçosas avenidas
daquela hora do dia.
Naquela manhã de quarta, tudo parecia igual: as pessoas, os carros, as avenidas. Porém,
havia um único detalhe diferente. E foi somente após alguns minutos, quando Carlos realmente
acordou, que então se deu conta de que aquele não era o 10º andar. Era muito mais alto do que o
10º, pelo menos duas vezes mais, embora não pudesse precisar com exatidão qual era. Logo que
percebeu lhe veio à cabeça a possibilidade de que talvez pudesse estar sonhando. Tocou-se, olhou
ao redor, andou, olhou a sacada e quando teve a certeza de que estava mesmo acordado teve um
misto de pânico e confusão. Como poderia? Será que havia ficado louco? Teria mesmo morado dois
anos no 10º andar ou esteve esse tempo todo enganado, alucinado? No intento de realmente se
certificar que não estava enganado, debruçou-se sobre o parapeito da sacada, de forma que pôde ver
toda a verticalidade em um ângulo reto até o chão, e assim contou um por um os andares abaixo do
seu:
estava no 24º. Ainda desesperado considerou a hipótese de durante a noite ter sofrido algum
tipo de dano neurológico que pudesse ter lhe comprometido a memória. Mas por que esqueceria
especificamente de uma única coisa? Não podia ser isso. Correu para a sala e de forma brusca abriu
a gaveta da estante, jogando tudo que havia dentro dela para fora, até encontrar uma
correspondência, endereçada a Carlos Vieira Souto, residente à Rua Otávio Dutra Leme, nº 2760,
Edifício Grécia, apartamento 1001. Vestiu-se rapidamente. Estava tão nervoso que mal conseguia
acertar a chave na fechadura. Chamou o elevador.
Estava demorando demais. Resolveu descer pelas
escadas. Abriu a porta corta-fogo e ao soltá-la fez um estrondo tão grande que ecoou por todos os andares. Descia de dois em dois, três em três degraus e mesmo assim aquilo parecia uma eternidade.
23º, 19º 15º e entre um lance e outro, bem na metade, a luz apaga completamente. Vinha tão rápido
que foi inevitável o choque contra a parede. Sentiu o baque bem no meio da testa. Pensou ter caído
e levantado, mas ficou inconsciente por cinco minutos. Ainda no escuro, tentando encontrar apoio
no corrimão, foi lentamente levantando e tateando até encontrar o interruptor de luz. Ao acendê-la,
levou a mão à testa e viu que não havia nenhum ferimento grave, apenas um pouco de dor.
Continuou descendo, embora com mais cuidado, ainda rapidamente. E naquele ínfimo espaço de
tempo era como se a cada degrau que descia, um dia de sua vida se projetasse na memória, ao
mesmo tempo que tentava encontrar uma explicação para o que estava acontecendo com ele.
Quanto mais se aproximava do 10º andar, mais pavor sentia. E ao dar de cara com a placa indicando
o 10º, hesitou e considerou voltar atrás, esquecer aquele dia e viver dali para frente como se tivesse
vivido sempre no 24º. Mas ao mesmo tempo se deu conta de que não poderia ignorar algo tão sério
e se tentasse, provavelmente viveria atormentado com essa dúvida para o resto da vida. Então
respirou fundo, tomou coragem, fez menção de abrir a porta, hesitou por um segundo e finalmente
adentrou o 10º andar, puxando com força a porta que agora parecia pesar uma tonelada, como se
aquilo fosse um alerta, prevenindo-o de que talvez fosse melhor não prosseguir. Mas prosseguiu e
novamente mergulhou numa escuridão total, que durou apenas milésimos de segundos, tempo
suficiente para que o sensor de movimento acendesse as luzes do corredor. O 1001 ficava no fundo
do corredor. Dobrou à direita e começou a caminhar lentamente, mas resoluto, em direção à porta.
Sentia-se tão assustado e inseguro que à medida que ia passando pelos outros apartamentos sentia
como se cada um dos outros moradores espiasse pelo olho mágico, julgando-o pela estupidez que
estava prestes a fazer. Parou em frente à porta e ao olhar para baixo sentiu o gelo subir pela espinha
quando viu que o tapete não era parecido, mas sim, idêntico ao seu. Exatamente igual ao que ele
havia pisado há alguns minutos atrás, quando deixou seu suposto apartamento, no 24º andar. Num
impulso de coragem tirou as chaves do bolso. As mãos trêmulas mal deixavam que achasse a chave
correta, quanto mais acertá-la na fechadura. E quando finalmente conseguiu e preparou-se para girála,
sentiu que a chave travou e que de forma violenta, alguém, do outro lado da porta tentava fazer o
mesmo. Seu reflexo imediato foi puxar a chave e se jogar para trás, afastando-se da porta. Ficou ali,
imóvel, ouvindo o barulho da fechadura pelo lado de dentro e congelado de medo. Tentaria fugir, se
conseguisse se mover.
Mas não conseguia. E só restou, naquela fração de segundos, esperar que a
porta se abrisse para finalmente saber o que estava acontecendo ou quem estava tentando fazer
aquilo com ele.
Quando enfim aconteceu, a reação em ambos foi a mesma: tamanho o pavor que sentiram
que um bateu a porta com força voltando para dentro e o outro, desesperado e fora de controle fez
todo o percurso de volta, voltando para o 24º andar e trancando-se no apartamento.
Sete e quinze da manhã. Os moradores do edifico Grécia acordam assustados com o som
intermitente das sirenes e o burburinho vindo da rua. Ao redor do prédio um grande movimento de
carros da polícia, ambulância e diversos veículos da imprensa. Curiosos juntam-se ao redor do
cordão de isolamento para tentar ver os corpos estendidos no chão. Há poucos minutos atrás dois
homens haviam se suicidado, jogando-se respectivamente, do 10º e do 24º andar. Dentro do prédio
o movimento também era intenso, já que policiais se encontravam nos apartamentos das vítimas,
para identificação das mesmas e investigação da cena do crime. Enquanto a perícia coletava
indícios, inspetores preenchiam a ficha de óbito, descrevendo a aparência das vítimas e as
circunstâncias na qual se encontravam. O primeiro, Carlos Vieira Souto, homem caucasiano, trinta e
cinco anos, cabelo e olhos escuros e em torno de um metro e setenta e cinco de altura. No corpo,
hematomas, escoriações e prováveis fraturas e hemorragias decorrentes da queda. Em seu closet,
inúmeras roupas antigas e máscaras de animais. O segundo, Valter Cândido Moura, homem,
caucasiano, setenta e oito anos, olhos verdes e em torno de um metro e noventa.
No 10º andar, os raios de sol se projetavam agora, sobre o lençol branco, com maior
intensidade pelo vão da persiana. Exatamente como em todos os outros dias, mas dessa vez, sem
ninguém para atuar. Na sala, uma única coisa fugia à simetria e ordem do lugar: uma partitura
jogada ao chão, próxima de um piano.
No 24º, o filme parecia ser exatamente o mesmo, também sem atores, mas ao menos com a
trilha sonora do despertador que tocava insistentemente.